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Esperma vira produto na Internet
Data: 22/12/2003

Por alterações genéticas, baixa contagem de esperma entre outros problemas, cerca de 10% dos homens não conseguem fazer um bebê naturalmente e precisam recorrer ao sêmen alheio.

Diante da limitação, muitos recorrem a um banco de sêmen. No Brasil há apenas três centros de medicina reprodutiva, um deles está em Maringá e foi o primeiro a ser criado, em 1982, pelo ginecologista e pesquisador, Gilberto Almodin. Os três enfrentam há algum tempo uma concorrência no mínimo curiosa: a venda de sêmen pela internet.

Para os americanos esse tipo de comercialização deixou de ser novidade e cada amostra não sai por menos de R$ 1,8 mil, segundo matéria divulgada recentemente na Veja, com informações do Hospital Albert Einsten. Na Inglaterra, o assunto ainda gera polêmica. No Brasil, não é permitido o comércio. O Brasil é, sem dúvida, um bom mercado para os americanos já que a doação de sêmen não faz parte da cultura brasileira e o comércio é proibido por lei. Nem mesmo a doação de órgãos, que tem campanhas sistemáticas na mídia, conseguiu mudar a mentalidade da população.

Além do pequeno número de homens que se dispõe a doar seu sêmen, o aproveitamento é baixo. Almodin é credenciado pela Rede Latino-Americana de Fertilização, de abrangência internacional. Sua formação em medicina é ginecologia e há mais de 20 anos se dedica à reprodução humana.

Em sua clínica ele mantém um banco com 500 amostras, cujos doadores foram submetidos a todos os exames necessários. Entre a retirada do esperma à aprovação para utilização há um período de pelo menos seis meses. Apesar da escassez ele é contra a comercialização, inclusive pela internet e afirma não utilizar sêmen importado, apenas nacional, por questão moral, ética e legal.

LEGAL A exemplo de outros que atuam em sua área, Almodin trabalha com um produto´ escasso. Qual motivação leva um homem doar seu esperma para um estranho, para que seja concebida uma criança com a qual ele não terá qualquer contato, perguntei ao médico. Enfático, ele respondeu que não existe diferença entre doar sêmen ou um olho, rim ou outro órgão do corpo humano. Contudo, Aldomin reconhece que doadores de sêmen de qualidade não dão sopa por aí.

Normalmente quem doa são pessoas mais sensíveis, envolvidas com a dificuldade de ter um filho, pondera. Um dos riscos da fertilização com sêmen doado é a possibilidade de dois irmãos se encontrar e até se casar.

O médico garante que todo o controle de doadores é feito para evitar esse tipo de ocorrência. Segundo ele, cada doador é isolado após três gestações com seu esperma numa região com 1 milhão de pessoas. O histórico do doador é o fator mais importante do processo. Os critérios para seleção são tão rígidos que a cada 10 doadores avaliados, apenas dois entram para o banco, segundo Almodin. O médico diz que trabalha com número reduzido de amostras (500) para melhor controle.

Não podemos fazer confusão, frisa, ao comentar um erro quanto às características do doador e do casal receptor como ocorreu no Rio Grande do Sul (RS) em que pais europeus optaram pelo banco de sêmen e nasceu um bebê negro.

Almodin explica que, nesse caso, o constrangimento é grande porque é comum o casal não dizer nem mesmo para os parentes mais próximos que a criança foi gerada por esse método. O contrário também constrangeria, porque um casal de negros não saberia explicar como geraram um bebê de pele branca. O controle é feito com ajuda de um software próprio. A tipagem sangüínea é uma das informações imprescindíveis na busca do doador ideal, mas os aspectos físicos, especialmente o nariz, segundo Almodin são muito importantes.

O casal procura o que mais assemelhe a eles. INFÉRTIL Diante da notícia de que não pode produzir sêmen para gerar um filho na companheira, o homem se comporta de forma resistente, segundo o médico. Há casos em que ele insiste na doação, mas a mulher não abre mão da maternidade.

Tive casal que pensou durante três anos, antes de se decidir pela doação de sêmen, comenta. A clínica não pode cobrar, apenas repassar ao casal as despesas da reprodução assistida. Encontrar o homem com as características que mais se assemelhem ao pai é um desafio considerável, mas ele menciona três preocupações básicas na reprodução assistida.

 Conseguir a gravidez no menor tempo possível, menor custo emocional e financeiro e a maior probabilidade de ser saudável.

Nenhuma clínica pode perder essas preocupações de vista, frisa. Para a infertilidade masculina ainda existem os bancos de sêmen. Já as mulheres não contam com esse benefício. Todas as experiências realizadas em bancos de óvulo não deram certo, segundo Almodin.

Numa masturbação o homem produz 50 milhões de espermatozóides e 90% são aproveitados. Na mulher, a quantidade cai para 50% e não se aproveitam mais de dois ou três óvulos.

Segundo o médico, há 28 mulheres na fila à espera de um óvulo. Gilberto Almodin é um dos poucos pesquisadores brasileiros que se dedica à reprodução humana. Ele foi o responsável pela primeira gravidez, por doação de sêmen, na América Latina. Já perdeu as contas de quantos bebês nasceram com ajuda da ciência e de quantos casais entraram em seu consultório com o sonho de ter um filho auxiliados pela tecnologia genética.

A evolução da Ciência força mudanças de comportamento.

O importante não é o racional, mas o envolvimento emocional. A capacidade de amar, frisa. Os casais assinam um documento com a clínica comprometendo-se a revelar a forma como a criança foi gerada.

Em todos os casais as crianças aceitaram de uma forma muito boa e o relacionamento na família é maravilhoso. Aconselho os pais dizerem que a criança foi muito desejada e gerada depois de muito sacrifício. É diferente de um bebê gerado num banco de um carro, compara ao ressaltar o planejamento exigido por esse tipo de gravidez.

O médico não revela os custos de uma reprodução assistida, mas afirma que 90% das pessoas que precisam desse método teriam condições financeiras para bancá-lo. Algumas das crianças geradas através do banco são adolescentes entre 15 e 16 anos. A reportagem insistiu, mas o médico não indicou, por ética, nenhum casal que tenha passado pela experiência.

Eles não falam sobre o assunto, nem mesmo para os familiares mais próximos, frisa.

Um dos grandes problemas que temos no Brasil é falta de regulamentação por parte do Conselho Federal de Medicina toda vez que a situação envolve a transferência de gametas (óvulo e espermatozóide) de uma pessoa para outra, reclama.

 
Fonte: O Diário de Maringá