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TRANSPLANTE DE OVÁRIOS
Data: 21/09/2006

Há cem anos, mais precisamente em 1901, o Dr. Franklin H. Martin de Chicago, EUA, preocupado em ajudar uma de suas pacientes que estava desesperada com a perda dos ovários, começou a pensar em uma maneira de ajuda-la.

Esta mulher, relatava grande infelicidade com as mudanças que a ausência dos ovários causavam. Com a perda da função hormonal, houve perda da fertilidade e comprometimento do seu casamento pelas alterações sexuais decorrentes das mudanças nos sistema hormonal. Dr. Franklin, em julho de 1903, reportou suas experiências e resultados no The Chicago Medical Records. Apesar de ter sido extremamente criativo e audacioso, os resultados não corresponderam às expectativas. Desde então, um numero cada vez maior de médicos e cientistas tem se interessado e desenvolvido varias linhas de pesquisas. Com o avanço de outras áreas da medicina, como o tratamento de câncer, cujo tratamento afeta os ovários e a grande mudança no comportamento social das mulheres procurando ter seus filhos mais tardiamente, tem contribuído de maneira significativa para que o numero de mulheres com falência ovariana aumentasse nas ultimas décadas. Já há alguns anos há consenso entre os vários centros de pesquisas, que a melhor técnica no momento seria a retirada dos ovários e congela-los, tentando preserva-los, e tentar restaurar a fertilidade no futuro. Quase todos os centros de pesquisas estavam direcionados a recuperar a fertilidade da mulher sem levar em consideração a recuperação total da função hormonal e conseqüente qualidade de vida. Três linhas de pesquisas estão até o momento sendo largamente explorada. Todas se direcionam em congelar os ovários e tentam utiliza-los somente quando a mulher pretender engravidar. Em todas, para a manutenção da função hormonal e conseqüente qualidade de vida, tem que ser com a utilização de reposição artificial de hormônios. Quando enfim, esta mulher pretender engravidar, terá que se submeter a fertilização in-vitro.

Para que isto ainda seja possível, o ovário após descongelado deverá fornecer os óvulos necessários para tal tratamento. Para conseguirmos os óvulos, podemos tentar retira-los do ovário a amadurece-los em laboratório. Outra tentativa que vários centros tem realizado é implantando o ovário em uma cobaia, geralmente camundongos, com o sistema imunológico deprimido ou implantar mesmo na paciente, como um grupo de médicos de New York fizeram, colocando o ovário no antibraço de uma paciente. Nosso grupo de pesquisa, após avaliar exaustivamente tudo que já estava em andamento no momento, concluiu que nenhum destes procedimentos conseguiria atingir os anseios de médicos e pacientes. Além do tratamento se tornar muito caro, as gestações seriam um grande golpe de sorte além de nenhum deles oferecer a possibilidade de retorno da função hormonal. Um grupo de profissionais, em conjunto com a Universidade Estadual de Maringá e liderado pelo médico Carlos Gilberto Almodin, começou então, a própria linha de pesquisa, não se focando na fertilidade como ponto principal, mas com o principal objetivo de recuperar a função hormonal completa das pacientes e esperando que a recuperação da fertilidade ocorresse simplesmente como conseqüência deste êxito. Com tal intuito, relata o Dr. Gilberto: começamos nossos experimentos em ovelhas, submetendo-as ao tratamento de radioterapia semelhante ao que uma mulher adulta deveria se submeter ao tratamento de um câncer. Após avaliação destes ovários, concluímos que o tecido germinativo realmente estava totalmente destruído, porém o suprimento sanguíneo estava muito preservado. Concluímos que o melhor local para tentar reimplantar um ovário, seria em outro ovário. Ao contrario de todos os centros que estão trabalhando neste tipo de pesquisa, resolvemos retirar somente um dos ovários em vês dos dois, para o congelamento. Este foi um dos grandes pontos de nossa pesquisa. Um dos ovários não foi retirado e deixamos que o tecido germinativo fosse destruído pela radioterapia e o mantivemos com o intuito que ele hospedasse o tecido germinativo do ovário contra-lateral que fora congelado.

O outro grande avanço foi que congelamos somente o tecido germinativo e não todo ovário. Isto fez com que a perda no descongelamento fosse muito menor. E por ultimo, utilizamos uma técnica que criamos, a qual chamamos de semeadura do tecido germinativo, no ovário hospedeiro. No principio quatro ovelhas foram submetidas ao tratamento, porém duas receberam os ovários de volta e duas não, para que servisse de grupo controle. Oito meses após o experimento, as duas ovelhas que receberam o implante recuperaram totalmente sua função hormonal, vida sexual e conseqüentemente engravidaram naturalmente. As duas que não receberam os implantes, permanecem em menopausa. Não satisfeitos, repetimos todo protocolo com dez coelhas. Sendo cinco, grupo controle e cinco recebendo os implante, e os resultados foram os mesmos. No mês de outubro passado, apresentamos os trabalhos á comunidade cientifica internacional em Settle, EUA durante o 58th Annual American Society for Reproductive Medicine Meeting. Nosso trabalho foi agraciado com o primeiro premio em pesquisa básica. Isto nos valida a iniciar o processo em humanos, oferecendo realmente a possibilidade de recuperar totalmente a normalidade da vida, nestas mulheres. Cem anos após a primeira tentativa, um pequeno grupo de pesquisadores em uma Universidade do Interior do País, surpreende o mundo com uma pesquisa de nível extremamente elevado e possibilitando a solução para um problema que aflige milhões de mulheres. Todo trabalho, foi desenvolvido por pessoas qualificadas e idealistas, sem nenhum tipo de recurso oficial, e arcando com todos os custos e se dizem apaixonados pelo que fazem.