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Folha Web: Brasil faz 1º transplante de ovário
Data: 29/07/2012

Procedimento foi realizado em Maringá pelo médico e pesquisador Gilberto Almodin, que começou a desenvolver a técnica há 13 anos

 Maringá - A medicina brasileira deu um importante passo na área da reprodução humana na tarde da última sexta-feira, em Maringá (Noroeste). O médico e pesquisador Carlos Gilberto Almodin, juntamente com sua equipe, realizou o primeiro transplante de ovário do País. A receptora é uma mulher de 29 anos, moradora de Ouro Branco (município próximo a Belo Horizonte - MG), e a doadora é sua irmã gêmea, moradora de Araraquara (SP). A expectativa é que dentro de seis meses a paciente recupere a fertilidade e possa engravidar espontaneamente.

Procedimentos semelhantes já foram feitos mais de 20 vezes na Bélgica, Estados Unidos e França, todos com sucesso, graças às pesquisas realizadas por Almodin desde 1999, quando foi procurado pela mãe de uma menina de seis anos que seria submetida a tratamento radioterápico e perderia os ovários. ''Inocentemente, ela me perguntou se teria como congelar seus ovários.'' A partir daí, o ginecologista maringaense não parou mais de estudar o assunto e de tentar criar soluções para garantir a reprodução em mulheres vítimas de menopausa precoce ou submetidas a tratamentos radio e quimioterápicos. Ele foi o responsável pela primeira gestação de mulher em menopausa do Brasil.

Os resultados dos primeiros experimentos com transplante de ovário feitos por Almodin - realizados inicialmente com ovelhas e coelhas - foram apresentados em Seattle em outubro de 2002 e premiados pela American Society for Reproductive Medicine Meeting. Logo depois o experimento foi todo refeito, para revalidação da técnica, e publicado na Inglaterra. Lá chamou a atenção de médicos belgas, que utilizaram a técnica pela primeira vez em uma mulher. A experiência foi bem sucedida e em 2004 nascia, em um hospital da Bélgica, o primeiro bebê concebido graças ao uso da técnica desenvolvida por Almodin.

De lá para cá, segundo o médico, já foram feitos pelo menos outros cinco transplantes semelhantes na Bélgica, 14 nos Estados Unidos e um na França. ''Em todos os casos, as pacientes engravidaram em um período de quatro a oito meses'', afirmou. Aqui a técnica só não tinha sido utilizada antes pela dificuldade de acesso às pacientes, que, em casos de falência ovariana causada por tratamento de câncer, devem ser encaminhadas por oncologistas.

A oportunidade de fazer o transplante pela primeira vez no Brasil surgiu graças à indicação de um médico de Belo Horizonte. Mariana Gerep de Morais, que recebeu parte do ovário da irmã, é uma turismóloga de 29 anos, que começou a apresentar sinais de falência ovariana aos 19 anos e com 22 anos já estava em menopausa. ''Só vamos poder dizer se o procedimento foi um sucesso ao final de alguns anos. Mas dentro de seis meses a oito meses ela poderá engravidar espontaneamente. Se isso acontecer, é o que nos deixará realmente felizes'', declarou Almodin, na manhã de ontem.

De acordo com o médico, Mariana e sua irmã, Elisa Gerep de Morais, foram operadas ao mesmo tempo. A equipe retirou metade de um dos ovários de Elisa. Esta metade foi dividida em duas partes e uma delas foi congelada para uso futuro, se necessário. A parte a ser utilizada foi submetida a processo de separação do tecido germinativo. Portanto, apenas alguns fragmentos do ovário da irmã foram recebidos por Mariana. Eles foram depositados em pequenas bolsas de seus dois ovários atróficos, em uma técnica conhecida como envelopamento. ''Este tecido implantado vai revascularizar e aderir ao ovário, fazendo-o recupar suas funções'', detalha Almodin.

Os procedimentos foram feitos por meio de pequenas incisões, como se fossem minicesarianas, e duraram 1,5 hora. A equipe médica foi composta também por Paula Motta Almodin, Vânia Cibele Minguetti Câmara e Moacir Rafael Radaelli. Por se tratarem de irmãs gêmeas, o médico acredita que dificilmente haverá problemas de rejeição. Até hoje este tipo de transplante nunca foi feito com tecido germinativo que não fosse colhido da própria paciente (nos casos de tratamentos de câncer) ou de parentes. ''Usar material doado por mulheres que não tenham parentesco com as pacientes é uma questão a ser trabalhada e discutida no futuro. Isto envolve também questões éticas, pois o bebê terá o DNA da doadora'', acrescentou Almodin. Ontem as irmãs passavam bem e devem ter alta entre hoje e amanhã.
 
Silvana Leão
Reportagem Local
 
Fonte:  http://www.folhaweb.com.br/?id_folha=2-1--3998-20120729